10 Julho 2008

Outro dia normal

O dia começara. Tanto que poderia ser qualquer dia da semana. O sol pairava baixo, e o ar ainda se mantinha fresco no raiar do verão. Fico à espera. Paira silêncio nas pessoas que comigo estão, desconhecidos do dia a dia. Caras conhecidas, e familiares de qual não conhecemos ou não nos apercebemos que existem.

Os minutos passam ao seu ritmo numa espera finita. Num momento que se aguarda pelo comboio, num cais sujo e recheado do pior odor social que o abraço vazio Lisboa-Amadora oferece. Mas esperando. Os minutos passam, e o comboio chega entretanto. Subo para a carruagem e no meio me fico. As portas fecham-se e o comboio deveria seguir viagem.

O barulho normal da carruagem, das pessoas, passava despercebido pela familiaridade da sua existência. Apenas o barulho da música do rapaz que está ao meu lado, se distinguia da normalidade.

Mas quando o silêncio, seguido de algo que acontecera entretanto, faz-se notar; foi como se o tempo parasse, nesta desconhecida nova realidade. Foi estranheza e alivio que encontrei neste silêncio. Breves segundos pareciam minutos, no próprio moldar entre si. Um breve momento de paz. O som de páginas de jornais, livros, revistas, a virar, se tornam o maior som presencial, mas baixinho. Sentia-me rodeado. Sentia-me rodeado de páginas num silêncio inesperado. Cada centímetro do seu movimento é sentido. Parecia que estava num concerto de papel. Nem uma conversa se ouve. Só o ruido branco pintado de letras, se movimenta no parar do tempo.


Mas a realidade e a normalidade voltaram. Tão depressa quando nos abandonou. Até a musica aparece, como as conversas, as pessoas, o trabalhar do comboio, tudo. Lá vou eu para o trabalho normalmente. Outra manhã igual. A diferença foi na queda da alimentação eléctrica do aparelho, inesperado pelo maquinista. Mas sem problema. Segui viagem.

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