01 Outubro 2007

Descida

São horas. Saio pela porta de madeira, em direcção à zona dos elevadores. O silencio, apenas perturbado pelo fecho de outras portas de andares de cima, e do som de passos isolados, vindos das escadas, por detrás da saída de emergência. Mas o silêncio, esse, volta. E a porta de madeira se fecha.

O som dos meus passos no hall, fazem um ligeiro eco. São três os passos, que faço para chegar ao botão de chamada do elevador. Já é fim de tarde, e grande parte das pessoas do escritório já foi para casa há muito tempo. Sinto-me quase como, sozinho. Sem ninguém nos andares, sem ninguém em lado algum. Apenas eu... Uma espécie de solidão e de presença misturada, num final de dia de trabalho.

Carrego no botão, onde se ouve o plástico a ser premido contra a estrutura que o suporta. Todo o mais pequeno som se ouve, se escuta, se nota. Incluindo o som dos cabos. Os cabos que elevam, ou descem os elevadores. Ouve-se a actividade do motor a colocar um elevador no meu andar. Era como se as paredes fossem de vidro, e o visse a descer, por detrás das paredes.

A porta abre-se. O maior som daquele momento. Enche por completo o hall. Novamente os meus passos que me faziam deslocar para dentro do elevador, se faziam notar. Carrego no botão de saída, e as portas fecham-se para o elevador descer.

Um som... Parece-me do ar condicionado. Sinto como houvesse movimento, mas algo vai estranho. O som, continua. No entanto o visor que indica o andar actual não desce. As portas fecharam, carreguei para descer, existe um som dentro que não consigo identificar, e no entanto estou parado!

O som era como tivesse a descer. Não consigo sentir movimento, não consigo visualizar a descida. Não tenho informação de estar a descer. Apenas fechado numa caixa, suspensa num buraco por cordas, pegado num motor ainda mais longe do chão.

O som... Os segundos parecem minutos. Como se literalmente sentisse o tempo a abrandar. Não vejo movimento, penso o que fazer. Espero... Nada! Espero outra vez... Nada. Investigo em mim a situação onde estou. Nada... simplesmente nada... O som perturba. O visor não desce. O som parece movimento contradizendo a informação do visor. A luz... a luz está no botão da saída, e no entanto nada se mexe.

Espero... Lembro do aviso desta manhã a informar que o elevador estava em manutenção. O mesmo elevador em que estou. A confiança que levou anos a ganhar neste tipo de aparelhos, perdeu-se em breves milésimos de segundo. A perda de controlo revolta-me. Mas parado... parado há 2 segundos e meio! Num elevador em manutenção. E estou fechado.

Mas... Parece-me ver, confirmo no meu consciente. O visor desce. Estou a descer. Sinto o abanar da descida! Vejo... o 2... o 1... Estou a descer.

As portas se abrem, e vou para casa. Despeço do segurança, e saio do edifício num final de dia de trabalho.


1 comentários:

Huglyone disse...

Não sabia que ja tinha aberto a epoca de duvidas existenciais...
:)

Belo texto...

BrunoV